Relato de um connoisseur: Spanish Crack Kids em entrevista

Dedicação, interesse, negócio, tudo isto são palavras do vocabulário de Spanish Crack Kids (hoje vamos chamá-lo assim). O interesse pelos sneakers despertou há mais de dez anos, e hoje as viagens fazem-se entre as edições especiais e o negócio racional que é vender sneakers àqueles que se desligam do mundo para se focarem no hype. Em volta da geração dos anos 90, o que é isso de ter uma sensação de empatia e de sentir vibe com os sneakers e tudo à volta são alguns dos outros pontos da conversa. Afinal, além de uma colecção, ter sneakers é também e muito fazer parte de uma cultura (algo que é muito mais além do que uma simples tribo). Leiam em baixo a palavra de Spanish Crack Kids em mais uma sessão do Sneakers Love Portugal.
 
Quando é que começou a tua dedicação aos sneakers?
 
A dedicação, podemos chamar-lhe assim, foi quando comecei a trabalhar e a ter algum dinheiro disponível para poder comprar mais do que três pares de ténis por ano. Continuo ainda com aquela meia dúzia que comprei em 2003 por isso foi mais ou menos por essa altura.
 
Praticamente nos anos 90 inteiros só usava Adidas Superstar, Puma Suede e Adidas Campus mas nunca para colecionar, se durassem um ano já era óptimo. No final da década a Nike apareceu em força e comecei a olhar pros runners de outra forma.
 
Neste momento quantos sneakers é que tens?
 
Deixei de contar quando passei os 150, mas sei que são mais do que esse número. Não vou responder se não ainda apareço naquele programa dos acumuladores onde o meu gato desaparecido em 2006 afinal tava escondido numa caixa de ténis e por lá ficou.
 
Usas a máxima “one to walk one to stock”?
 
Nos dias que correm é mais “one to rock, one to sell”. A maior parte da minha colecção foi feita pq comprava dois pares e vendia outro ao triplo do preço. Só consegues este tipo de lucro em lançamentos quickstrikes ou cheios de hype à sua volta, nas séries mesmo limitadas cujo buzz à volta delas vai criar uma histeria tal que todos os hype monkeys vão querer aquele par a qualquer custo, por isso mesmo tens que saber bem o mercado e comprares os ténis certos. Se tudo correr bem ficas com os ténis que tens calçados pagos e ainda fazes lucro para ires beber minis na roulote antes dos jogos do Sporting em Alvalade.
 
Quais os sneakers que mais valorizas na tua colecção?
 
Nunca me vou desfazer dos meus Air Max 1 Atmos Safari, Puma “Clydezilla”, Adidas Quórum OG nem dos New Balance 1500 Solebox Finals. Uns valem mais que outros mas vou usá-los até ficarem totalmente destruídos.
 
Se tivesse que vender a alguém os mais caros a nível de mercado seriam os New Balance 1500 Colette , os Adidas ZX9000 Woodwood, Nike Air Max 1 Viotech, Safari & Urawa Reds.
 
O que é que achas mais fascinante num sneaker? As colaborações, as cores? Talvez a maior criatividade quando comparada com o resto da indústria de calçado?
 
Sinceramente a primeira coisa que tomo atenção é ao shape, depois a cor. Existem centenas de general releases que acabam por ser melhores que muitas colaborações. Ser super limitado não significa que é melhor, no final o que conta é mesmo a qualidade e a forma como foram construídos. Se conseguires juntar o shape, a qualidade e as cores certas ao limitado então temos um vencedor.
 
Fascinante é um designer criar uns Air Safari em 87, colocar uns Jordan sem swoosh e arriscar com o conceito dos Flyknit. Obrigado por existires Tinker.
 
Ser criativo num sneaker nem sempre é meter lhe umas asas de lado ou um teddy bear a servir de pala…
 
Tens cuidados de manutenção especiais com a tua colecção ou nem por isso?
 
Uso todos os ténis da coleção e levo os para todo o lado. Tento não levar os Adidas Campus Footpatrool para ir ver os Turbonegro por exemplo mas de resto a coleção esta toda arrumada em estantes e de rapido acesso. Comecei a deitar tudo o que era caixa fora para ser mais fácil ir buscar aquele par em vez de tar a procurar los numa pilha de caixas laranjas, azuis ou vermelhas. Os cuidados são mesmo os suficientes para estarem prontos para a rua sem pegadas ou baba do meu cão.
 

Espanhol | Colecção

 
Na tua opinião, a que é que se deve a falta de cultura sneaker que temos em Portugal?
 
As pessoas continuam mais interessadas em comprarem ténis de marcas de roupa que verdadeiro footwear. Enquanto esse consumidor estiver mais voltado para esse tipo de calçado o lojista não pode investir numa loja com bons ténis e vendê-los só em tempo de saldos.
 
A cultura existe, esta cá como em toda a Europa. Eu nasci e fui influenciado por ela nos 90 por isso não vejo razão pq mais uns milhares tb não o foram em Portugal.
 
Desde o Jordan todos os domingos a fazer maldades na Rtp2, à capa “Check your Head” dos Beastie Boys com o AdRock, MCA e o Mike D a rockarem Puma Suede e Adidas Campus, os SickofItAll com os seus Vans Oldschool, o Michael J. Fox com os seus Nike Bruin no Regresso ao Futuro, Jamiroquai e o seu fato de treino e Adidas calçados, os Anthrax com os Attitude Hi da Adidas, etc.
 
A lista é longa e quem cresceu nessa época sabe do que estou a falar, todos estes eventos formam o que é a cultura de ténis hoje em dia e sem estas influências nunca tínhamos chegado a este ponto, eu pelo menos.
 
Nessa altura usava se mais este ou aquele modelo porque era prático, durava e tinha um design simples mas ao mesmo tempo porque também te identificavas com este ou aquele grupo e estilo de vida, ou então porque sonhavas em saltar da linha e voar como o Jordan…
 
Acabamos por não acompanhar o resto do mundo em drops mais exclusivos porque nunca houve uma loja de referência para verdadeiros coleccionadores no nosso pais. Até lá, viajar ou net é o teu escorrega mais rápido pro vício.
 
Até onde é que já foste para comprar uns sneakers? Queres partilhar alguma história especial?
 
Já fiquei a noite toda a porta da Stussy em Londres para comprar os Nike x Stussy Courtforce, quando os donos do café em frente a loja souberam que tinha vindo de Lisboa de propósito para comprar os ténis ofereceram me o pequeno almoço e disseram me que deviar tar doente. E estava. Mas mais de 300 londrinos tinham o mesmo problema que eu.