Miguel Meruje: um mundo sneaker

Uma conversa sobre sneakers com Miguel Meruje

São “ténis”, em vez de “sneakers”, mas o interesse e a dedicação de Miguel Meruje à causa vai muito além de uma simples designação. A partir da Quinta das Lameiras, onde deu os primeiros passos, até Londres, onde agora passa a maior parte do tempo, o Director Criativo da Organic Anagram Industries faz a apologia do melhor pelo melhor (quando falamos de sneakers, é claro).

Miguel Meruje fez connosco um roteiro entre as colaborações da Supreme, os caminhos dos Air Max da Nike, as buscas em outlets, e os percursos dos sneakers em Portugal. Por um caminho feito de sneakers ainda mais sólido entre nós, aqui fica uma entrevista em jeito de descoberta.

A pergunta ortodoxa: quantos sneakers é que tens na tua colecção?

Ligeiramente acima dos 100. Quanto tinha 22 anos vendi muitos, aquilo que são considerados os ‘holy grails’ de muita gente, mas não me arrependo porque fui bem pago por eles e continuo a ter mais ténis do que preciso.

Essa dedicação vem de longe?

Sim. Eu cresci a andar de skate, a jogar basket e também influenciado pelo hip hop, entre outros estilos, por isso o meu fascínio foi despertado para estes movimentos urbanos em que os ténis sempre foram vistos como uma vertente cultural. O motivo que me levou a começar a comprar ténis foi porque quando tinha 10 ou 11 anos, eu tinha um amigo 4 anos mais velho, e na altura havia uns Converse Cons de basket, todos pretos.

Ele gostava dos ténis, e eu fiquei impressionado assim que os vi. Um dia, as nossas mães levaram-nos a passear, e ele ia com o intuito de comprar esses ténis. Chegámos lá e a minha mãe não mos comprou porque eu era novo de mais e ia estragá-los depressa (ela tinha razão) e eram caros para mim (18 contos, também tinha razão).

Ela acha graça que eu goste tanto de ténis, e quando diz qualquer coisa sobre eu estar com uns que nunca viu, eu relembro-lhe que se eu não tivesse o trauma de não ter aqueles dos 10 anos, talvez não ‘precisasse’ agora de tantos e rimo-nos.

Qual foi a maior quantia que já pagaste por uns sneakers?Miguel Meruje | Sneakers

Como eu tenho acesso a muitas lojas, nunca paguei nada acima do ‘retail price’, que me lembre. E como me considero um “especialista” em ‘digging’, tive a sorte de ir a mesmo muitas Nike Outlet e Factory Stores, se bem que hoje em dia já não haja tantas probabilidades de se encontrarem pérolas lá no meio, pois os stocks já são feitos para eles, em vez de serem sobras ou vindos de outros mercados.

Portanto para mim é mesmo acerca de encontrar ténis interessantes a preços baixos, em lojas fisicas, em vez de ser para andar a estoirar dinheiro na Internet. Uma vez por outra lá compro uma release normal, mas é raro.
Hoje em dia procuro ténis pelas cores, inovações técnicas e do programa ACG.

Por exemplo, eu tenho muitos Air Max 1, mas se vir uma cor que ache bonita a 30€, compro automaticamente. Se ia pagar 130€ por uma cor que gostasse mais? Não, porque ia usá-los as mesmas vezes e já tenho suficientes.

Nessas Factory Stores da Nike, o meu número está quase sempre com promoções especiais, seja 3×2 ou bons modelos que ficam a 25$ porque pelos vistos quem tem pés grandes não liga ao que é bom.

Qual o sneaker mais precioso (em termos de valor de mercado) e o mais valioso (para ti)?

Eu percebo a pergunta, mas eu não vejo as coisas nesses termos. Tenho uma cor dos Air Max que nunca vi à venda e adoro-a, para mim isso vale mais do que uns Jordan que qualquer pessoa com 400$ compra a revendedores.

É a preciosidade de os encontrar. Eu vejo alguns sites de ténis (raramente), mas muitas revistas, ou seja, não ando em forums ou comunidades assim, portanto só tenho uma ideia geral do que as pessoas pagam por ténis de colecções anteriores.

Não sei se alguém procura os Dunk do Buzz Aldrin que eu tenho, mas para mim valem mais do que uns Tiffany, nunca os voltei a ver à venda e achei-os a 20$ no Mississippi, portanto para além de serem muito bem desenhados, tenho uma história com eles.

No entanto, a resposta andará pelas colaborações da Supreme (que acabo por vender quando me fazem ofertas muito altas) ou alguns Jordan. Já se me perguntares qual é o modelo favorito, são os Air Max Light, por serem óptimos no desempenho e no aspecto.

Sneakers são para todas as ocasiões?Miguel Meruje | Sneakers

No meu caso, sim. No meu trabalho é-me pedido que use sapatos, mas por exemplo, uso várias vezes os Nike SB Janoski Blackout, que são todos em preto, e acabam por ter melhor aspecto do que sapatos convencionais. Já agora, só para continuar aquilo da história por trás dos pares, 40$ em saldos na DQM, quando os Janoskis ainda eram bem feitos.

Chegou a hora de Portugal ter um mercado de lançamentos exclusivos, colaborações de marcas com lojas nacionais?

Podiam-se fazer umas coisas com, por exemplo, ténis limitados a 30. Pode parecer idiota, mas acredito que era um bom número, e não é assim tão estranho, dado colaborações globais com lojas Holandesas ou Inglesas serem muitas vezes limitados a 100.

Temos o que merecemos? (em termos de mercado, de interesse, etc)?

É o que é, não? No meu caso, como tenho outras ocupações, eu não perco tempo na Internet em foruns de ténis ou construo o meu círculo de amigos baseado nisso. Não tenho nada contra quem o faz, só não é o meu estilo de vida.

Eu cresci a respeitar as lojas físicas e mesmo há 10 anos atrás tinha de se ir a um sítio diferente para comprar uma colaboração ou uma côr que ninguém tivesse. Eu gosto de ter ténis diferentes, mas porque me sinto bem com eles, até porque se fosse só para mostrar, mais valia estar quieto pois para a minha familia e amigos é indiferente se eu tenho calçado X ou Y.

Sei que há muita gente a comprar ténis em Portugal, mas aquele tipo da cultura da Footlocker para mim é péssimo, onde se paga 140€ pelo modelo da moda, só porque há pouquíssimas lojas dedicadas aos ténis em Portugal e não há esse tipo de cultura de educar as pessoas frente a frente.

Vais a qualquer loja de streetwear, encontros ou feiras de ténis e vês a diferença do valor das coisas, pela qualidade delas.