Gang of Four: os suspeitos do costume

Gang of Four

E se um dia um grupo de quatro amigos se juntasse para abrir uma loja com as marcas de que mais gostam? Esta é, em poucas palavras, a história da Gang of Four em Coimbra. Desde 2005 que a loja apresenta marcas diferenciadas  à cidade dos estudantes e a todos os que por lá passam. É fácil falar, mas é ainda difícil seguir um caminho fora do rebanho em Portugal, essencialmente devido às dimensões do mercado que temos. Estivemos à conversa com o ‘Gang’ sobre a sua história, as marcas, criar laços (que é afinal grande parte do sucesso de um espaço comercial) e outras coisas assinadas pelos suspeitos do costume, os de Coimbra. Leiam em baixo.
 
Queremos saber toda a história por detrás da Gang of Four
 
A história da Gang of Four é uma história de muita dificuldade e tristeza…
 
Tudo começou enquanto consumidores, com um gosto sobre uma marca específica: a Carhartt. Em 98/2000 a Carhartt ficou-nos “debaixo de olho” porque, de entre as marcas de streetwear que se viam, nós achávamos que era a que oferecia melhor relação qualidade/preço (e continuamos a achar!).
 
Havia muita DIFICULDADE porque a oferta na cidade era limitada e TRISTEZA porque não conseguíamos comprar os modelos que gostávamos… Tínhamos de fazer grandes viagens para encontrar mais alternativas.
Desta necessidade, a juntar o “gang” e propor-nos a criar mais uma oferta à cidade de Coimbra – que na altura estava pelas ruas da amargura – foi um pequeno passo… de anos.
 
O pretendido sempre foi tentar trazer algo diferente das restantes lojas existentes. Trabalhar poucas marcas, mas tentar fazê-lo da melhor forma. Com muita dedicação. E assim permitir mais alguma alternativa numa cidade dominada pelas grandes cadeias e com pouca actualização ao nível das novidades a ocorrer pelo mundo fora.
 
Como é a experiência de ter uma loja como a vossa numa cidade como Coimbra?
 
Quando abrimos a Gang of Four, o nosso conhecimento do meio era nulo. Fomos crescendo enquanto pessoas ao mesmo tempo que fomos ganhando maturidade enquanto “empresários”. Rapidamente verificámos que havia mercado para o nosso produto, ou não fosse Coimbra uma cidade universitária.
 
Passámos muito tempo a experimentar ideias, marcas, estratégias, etc., e fomos tentando encontrar o equilíbrio entre o conceito que pretendíamos ter e o fazer o que se espera de um estabelecimento comercial, que é: não ter prejuízo!
Estamos abertos desde 2005 e tem sido bastante gratificante. Fizemos amigos para a vida. Conquistámos uma cota de mercado que nos tem permitido continuar de portas abertas.
 
Continuamos a acreditar que podemos ser uma alternativa ao existente. Não porque tenhamos mais visão ou acesso a melhor informação do que os outros, mas porque, quando acreditamos numa marca, nos dispomos a fazer o melhor trabalho ao nosso alcance para a promover.
 
 

Gang of Four

 
 
Qual é o vosso actual portefólio de marcas?
 
Neste momento, a Gang of Four tem à venda produtos da Carhartt, Fred Perry, Obey, Dickies, New Balance, Casio e G-Shock. Não sendo esta uma grelha fechada.
 
Dispomos de um espaço físico limitado pelo que achamos que se queremos representar com alguma dignidade e profissionalismo uma marca, não devemos ter mais de cinco de vestuário e duas de calçado (sendo que algumas das marcas que comercializamos abrangem os dois segmentos).
 
Ao longo do tempo temos sido abordados por diversas marcas que nos têm proposto várias outras formas de trabalhar, mas temos sido resistentes e julgamos que tem trazido benefícios.
 
 
Há planos para expandir esse catálogo?
 
Temos estas marcas porque em determinada altura faziam sentido para o nosso conceito. Não existiam noutros pontos de venda da cidade e permitiam ser(mos) uma alternativa. À medida que essas condições vão mudando, terão de mudar também as marcas que pretendemos disponibilizar, pelo que a qualquer momento poderão ocorrer substituições.
 
Enquanto consumidores somos curiosos e apesar de acharmos que somos todos muito diferentes, vamos seguindo sempre algumas tendências que por alguma razão nos dizem algo.
 
Cada vez é mais acessível o contacto directo a produtos que conhecemos via internet e isso cria uma panóplia tremenda de possibilidades!
 
 
Partilhem connosco sobre a história mais “exótica” que já aconteceu na Gang – com clientes ou não…
 
Hum… Talvez esta, durante os primeiros cinco anos de existência a Gang of Four estava localizada num ponto menos simpático da cidade, por ser um lugar de passagem para uma zona infamada por toxicodependentes. Isso nunca representou um problema para nós, muito contrário. Muitos que por ali passavam eram nossos clientes.
 
Num potente dia de verão um jovem entrou na loja e começou a experimentar os casacos mais quentes que tínhamos. Acreditando que não estaria na sua melhor condição física e psicológica deixámo-lo estar sossegado, até que insistiu que queria comprar o casaco mais quente – e por consequência mais caro – que tínhamos disponível. Saiu dizendo que ia levantar dinheiro e que regressaria para o comprar. Deixámos o casaco de parte, mas acreditámos que não regressaria. Mas passados poucos minutos chegou com as notas ainda dentro da caderneta, entregou o dinheiro, pediu que tirássemos as etiquetas e recusou o saco. E assim o vimos desaparecer na esquina, debaixo de três dezenas de graus centigrados, muito aconchegadinho no seu bomber jacket forrado.
 
 
Para quando a loja online?
 
A loja online já foi uma possibilidade, mas tem havido algumas limitações logísticas que ainda não o permitiram. Decidimos que em primeiro lugar está o atendimento personalizado que o comércio tradicional requer. Mas não é de modo nenhum um capitulo encerrado para nós.
 
 
Por fim, deixem-nos as vossas impressões sobre rumo do streetwear e do sneaker business em Portugal…
 
A maior parte da oferta existente não tem muita personalidade, isto na medida em que são espaços dedicados a milhentas marcas e sempre aos modelos – e marcas – mais comerciais. Ou seja, são logo limitativas à partida. Assim não há um factor agregador, aliás, até obriga à dispersão. Se a isto juntarmos o estado da nossa economia, que não permite a maior parte das pessoas adquirir os produtos que realmente quer, temos os ingredientes necessários a manter a dificuldade de crescimento das duas áreas.
 
As lojas mais pequenas que surgem e que pretendem posicionar-se nesse mercado tem de realizar um grande esforço para se manterem à tona de água. Mas estamos confiantes que o rumo poderá mudar, que a economia irá também melhorar e que grandes surpresas nos aguardam num futuro próximo.