Testemunho de um pioneiro: uma entrevista com Jeff Carvalho do Highsnobiety

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Jeff Carvalho, Editor Executivo e Sócio do Highsnobiety, faz parte dos pioneiros do enorme mundo do streetwear e dos sneakers.

Uma profunda paixão pela música e pelas culturas de rua abriu caminho para uma carreira numa indústria que não existia. Carvalho é um descobridor urbano que encontra um entusiasmo sempre maior na descoberta de novos talentos.

O Highsnobiety há muito que deixou de ser um blog para ser um meio de comunicação poderoso, que dita tendências e que apresenta marcas e talentos muito antes dos media mais mainstream. Ao lado de David Fischer, Carvalho descobre as próximas vagas e apresenta-as como ninguém. A moda e os sneakers, a ligação com Portugal, ou o futuro da indústria foram alguns dos temas abordados na entrevista que nos concedeu, por email, a partir de Nova Iorque.

Quem é Jeff Carvalho?

Alguém que foi capaz de transformar os seus interesses numa carreira, quando uma carreira deste tipo nem sequer existia. Falar sobre street fashion e sneakers estava longe de ser um trabalho, mas de alguma forma chegámos até aqui.

Como é que foste viver para os Estados Unidos, já que tu de facto és português, certo?

Os meus pais emigraram de Portugal para os Estados Unidos nos anos 70, eram ainda adolescentes. Conheceram-se e casaram aqui nos EUA. As minhas origens familiares são todas portuguesas, mas eu sou tipo primeira geração de Americano-Português.

A tua ligação com o mundo editorial começou de que forma?

Criar conteúdo é fazê-lo na plataforma do momento, e eu sempre fui muito interessado por storytelling. Ainda adolescente ouvia muita música underground, e também descobri o imenso mundo das zines, das revistas feitas quase em casa. A internet é uma plataforma livre para expressar qualquer interesse e isso atraiu-me da mesma maneira que a publicação de zines, como que da mesma forma. No final dos anos 90 escrevia sobre música de dança e passei a escrever também sobre cultural quando encontrei a paixão pelo streetwear. Comecei por fazer podcasts em 2005 e depois a escrever para blogs em 2007.

Mas, hoje, criar conteúdo vai muito além da palavra escrita, ou falada. No Highsnobiety olhamos para todas formas de conteúdo como algo que faz parte do universo cultural. Basta olhar para o trabalho que fazemos no Facebook, ou no Instagram para vermos isso. O IG por exemplo é conteúdo editorial de vídeo, e a verdade é que somos bastante bons a fazer isso.

A moda e o negócio dos sneakers também tende a estar cada vez mais em constante mudança – como é que vês isso?

Sou um fã, mais do que qualquer coisa, mas o entusiasmo não surge com os modelos mais conhecidos, é mais através das edições especiais e mais afastadas dos olhos de toda a gente. Os adidas Spezial do Noel Gallagher são um exemplo. Existe uma profunda cultura de storytelling à volta dos sneakers e do mundo do calçado, e embora esteja cada vez mais mainstream, ainda há muitas coisas boas para encontrar.

Qual a tua ligação com Portugal na actualidade? Tentas seguir o que lá se passa com alguma regularidade?

Família e o amor pelo futebol do Benfica. Não vou a Portugal há algum tempo, é embaraçoso, mas é verdade.

Quais as marcas que mais te surpreenderam nos últimos anos?

Anti Social Social Club, adidas, e todas as marcas coreanas.

Consegues ver-te a continuar a trabalhar nesta indústria para o resto da vida? Achas que a paixão vai esmorecer, e se sim, vês-te a trabalhar em quê?

Vou continuar a trabalhar nesta área enquanto me entusiasmar a enorme inovação. Nutro a paixão de falar e descobrir os movimentos street há 15 anos. Não vejo que isso vá cessar tão cedo.

Achas que a tomada hostil por parte do mainstream vai afectar a indústria? Se pensarmos, até há cerca de cinco anos não existia tanto “barulho” em seu torno como agora. Ou, como Jeff Staple disse uma vez, sentes que por muito que tudo isto cresça vai continuar a ser «o nosso pequeno mundo»?

Acho que o termo “tomada hostil por parte do mainstream” é injusto. Por que é que este mundo tem de ficar como algo fechado, hermético, como de uma ilha se tratasse? O ponto essencial da criatividade e das coisas boas é partilhá-las com toda a gente. Tens razão quando dizes que a energia em volta deste mundo de que falamos e vivemos (eu prefiro chamar energia e não “barulho”) é mais forte do que nunca porque as grandes marcas estão a tentar perceber como e quem é o consumidor da próxima geração; quem é que vai ser a próxima referência individual. Em parte, o nosso papel é fazer a apresentação antecipada dos próximos talentos: aquele designer, fotógrafo…

Por cada marca pequena que cresce e aparece aos olhos do grande público existem muitos outros indivíduos talentosos que sonham em ser a próxima grande cena.

O que reserva o futuro para o Highsnobiety?

Ser a fonte e o meio de comunicação mais credível sobre todas as novas tendências.

Por fim, o evento Sneakers Love Portugal deve acontecer ainda antes do final do ano. Podemos contar contigo?

Mandem-me um convite!